O futuro do trabalho vai muito além da inteligência artificial e da transição geracional. Ele redefine a relação humana com o tempo, o espaço e o propósito corporativo — e essa transformação começa muito antes do primeiro emprego, lá na educação.
Novos modelos de trabalho, espaço e tempo
Devemos prestar atenção nos modelos de trabalho, por exemplo, caracterizados pela hiperflexibilidade e baseados em entregas, não em horas sentadas. Outro ponto importante é o espaço, com a consolidação definitiva do trabalho de qualquer lugar do mundo, o "anywhere office", onde espaços físicos são focados exclusivamente em socialização e cocriação e escritórios se transformam em hubs. Quando o assunto é tempo, percebe-se uma tendência de adoção crescente da semana de quatro dias para combater o esgotamento mental.
Novos formatos de contrato e carreira
Uma outra questão a ser observada é o formato dos contratos, com empresas estruturadas por projetos dinâmicos, sem barreiras fixas, se transformando em organizações mais líquidas, profissionais multicarreiras mantendo múltiplos vínculos de trabalho simultâneos e salário sob demanda, com acesso ao dinheiro referente ao que foi trabalhado antes do fim do mês. Neste mesmo contexto, há um forte indício de que especialistas seniores e experientes passem a migrar para consultorias por projetos.
Bem-estar, sustentabilidade humana e liderança regenerativa
Além disso, fala-se de bem-estar e sustentabilidade humana, com a valorização de cargos focados em saúde mental corporativa, estabelecendo-se e reforçando uma "economia do cuidado", sendo as empresas penalizadas se exaurirem o capital humano dos funcionários e havendo uma transformação da liderança, consolidando-se como regenerativa, onde gestores estão focados em recuperar e desenvolver pessoas, não apenas cobrar.
As competências que vão importar
Quanto a novas competências, e até mesmo as "power skills", percebe-se a necessidade de alfabetização de dados, com a capacidade de questionar e interpretar análises complexas, de curiosidade direcionada, a habilidade de aprender e desaprender rapidamente, também chamada de "lifelong learning", de diplomacia corporativa, por meio da mediação de conflitos em ambientes hiperconectados e diversos, e, por fim, de antifragilidade ou capacidade de evoluir e melhorar mesmo em cenários de caos.
A relação escola-trabalho
Estivemos no Educa, evento organizado pelo Instituto Caldeira, que visa aproximar os jovens do mundo do trabalho, universo que tanto nos interessa.
Dentre tantas temáticas interessantes, em palestras, debates e painéis que ocorreram de forma simultânea nos diferentes espaços do local, podemos destacar alguns pontos que mais nos chamaram a atenção. Um deles é a importância da relação escola-trabalho, englobando as competências e habilidades socioemocionais (capacidade de compreender e gerenciar emoções, desenvolver relações saudáveis, estabelecer metas e tomar decisões responsáveis) e cognitivas (capacidade mental e intelectual usada para processar informações, aprender, raciocinar e resolver problemas), principalmente na transição do ensino médio para a vida laboral.
Neste contexto, se faz necessária uma maior aproximação entre o ambiente escolar e o mundo profissional, transformando a escola em um ambiente mais permeável, estabelecendo pontes com o que acontece fora dela, visto que a nossa relação com o trabalho começa desde cedo, quando crianças, visto que nossos pais, parentes ou os adultos ao nosso redor trabalham. É muito comum que, quando pequenos, desde cedo, comecemos a pensar naquilo que queremos ser quando crescermos, baseados em profissões com as quais temos contato mais próximo.
Outro ponto importante que foi mencionado consiste em trazer o setor produtivo, o conjunto de todas as atividades econômicas voltadas à produção de bens e à prestação de serviços, para o contexto escolar. Na educação, além de desenvolver o pensamento crítico, principalmente em tempos de Inteligência Artificial, que consiste em um estímulo constante para não se aceitar rapidamente uma primeira resposta, é importante também se trabalhar com a intencionalidade, a partir de necessidades reais, unindo embasamento teórico com aplicação prática para a criação e construção de repertório, mas também de portfólio.
Aprender a perguntar, na era da IA
Falando em repertório, foi discutida também a importância, neste contexto de IA, de saber fazer boas perguntas, nos convertendo em "perguntadores", a partir do pensamento crítico, uma das habilidades inerentes ao ser humano. De acordo com o que foi dito, saber usar a ferramenta é só o começo. O mais importante é querer aprender, aprender a aprender, estar aberto a aprender e aprender a desaprender. O resgate da habilidade de pensar como uma criança, com a sua curiosidade própria e característica de quem está descobrindo o mundo, é vital no contexto em que estamos vivendo.
A Inteligência Artificial não substituirá os humanos, mas os humanos que sabem usá-la substituirão aqueles que não sabem. No entanto, o grande diferencial será a atitude: o que se faz com todo este conhecimento. Por mais que a alfabetização digital seja extremamente necessária, são as "soft skills" que irão separar o joio do trigo, é a habilidade de ser humano. A IA é excelente no processamento de dados e reconhecimento de padrões, mas não possui consciência.
