Lançamos a série Educação para o Trabalho, um tema que é muito caro para mim. Ao longo dos episódios, fizemos uma viagem no tempo para analisar como as formas de ensinar e aprender no mundo do trabalho se transformaram ao longo dos anos. Também discutimos os desafios que o mercado atual apresenta a gestores, colaboradores, educadores e profissionais de desenvolvimento humano.

Historicamente, a educação formal esteve relacionada às necessidades econômicas, políticas e sociais de cada época. Na Idade Média, por exemplo, a expansão do comércio contribuiu para o desenvolvimento de formas de ensino voltadas às necessidades práticas dos comerciantes, como ler, escrever e calcular. Mais tarde, a ampliação da escolarização e a organização dos sistemas públicos de ensino estiveram relacionadas à formação dos cidadãos, à consolidação dos Estados modernos e às transformações trazidas pela Revolução Industrial.

E atualmente, o que mudou?

A transformação digital acelerou mudanças na economia, nos negócios e nas formas de ensinar e aprender. Um contexto de mercado cada vez mais dinâmico e complexo vem mudando os modelos de trabalho, os espaços, os horários, as relações e as prioridades profissionais. Presenciamos a expansão de trajetórias profissionais não lineares, o surgimento de novos cargos e ocupações (e a obsolescência de outros), além de atividades multidisciplinares e interdisciplinares. O próprio sentido do trabalho vem mudando e incorporando, para muitas pessoas, o desejo por mais autonomia e propósito.

Ao mesmo tempo, profissionais disputam espaços em um mercado no quais tecnologias emergentes assumem um número crescente de atividades operacionais e até tarefas que envolvem análise e “raciocínio” (ouso dizer). Habilidades como pensamento crítico, criatividade, comunicação e capacidade de colaboração ganham relevância neste cenário. Afinal, se conhecimentos e ferramentas mudam, a capacidade de aprender continuamente torna-se cada vez mais importante - além de ser mais perene.

Nos processos seletivos de algumas organizações, já se observa uma valorização crescente das competências comportamentais, enquanto o desenvolvimento de competências técnicas é desenvolvido após a contratação. Esse movimento indica a importância de formar profissionais que, além de conhecimentos específicos, tenham disposição e capacidade para aprender, colaborar e se adaptar a diferentes contextos.

Educar para o trabalho ou para a vida?

No campo da educação para o trabalho, as mudanças são igualmente significativas e sentidas. Ainda encontramos modelos de ensino marcados pela fragmentação dos conhecimentos e pela transmissão de conteúdos que remetem à lógica produtiva da era industrial. Ao mesmo tempo, o perfil dos estudantes vem se transformando, trazendo novas expectativas e desafios. Em muitos casos, é evidente a distância entre determinadas práticas educacionais e as demandas do mundo profissional.

Repensar a educação para o trabalho, tanto nas instituições de ensino quanto nas organizações, é fundamental. Essa discussão exigiria uma reflexão mais ampla e profunda do que cabe neste artigo, ainda assim, vale destacar um dos caminhos possíveis: fortalecer as relações entre academia e mercado, promovendo trocas que beneficiem ambos. Enquanto as organizações precisam responder rapidamente às mudanças, a academia pode contribuir com reflexão, pesquisa e rigor técnico. Por sua vez, o diálogo com o mercado pode ajudar as instituições de ensino a repensar currículos, metodologias de ensino e formas de avaliação, aproximando a formação dos desafios da prática profissional.

Nesse cenário, o papel do professor também se transforma. O consumo de tanto conteúdo digital nem sempre consistente ou confiável e da multiplicação de fórmulas prontas, ensinar exige mais. O professor atua como mediador e curador de conhecimentos: seleciona e contextualiza referências, articula reflexões e práticas, reconhece potencialidades e apoia os estudantes no desenvolvimento de suas competências. Nesse processo, o espaço da sala de aula, as relações e as trocas tornam-se essenciais.

O Dia do Professor torna essa discussão ainda mais importante. Como professora universitária e publicitária em atuação, entendo que educar para o trabalho não se resume a preparar pessoas para responder às demandas atuais do mercado. É também ajudá-las a compreender os contextos em que atuarão, questionar rótulos e respostas estabelecidas e desenvolver autonomia para lidar com desafios aos quais ainda nem fomos apresentados.

A educação precisa acompanhar as transformações do mundo do trabalho, como vem fazendo ao longo da história. Talvez a diferença seja que hoje, sua contribuição precisa ir além de responder às demandas mercadológicas: deve se ocupar em também formar pessoas capazes de pensar, aprender e fazer escolhas para viverem melhor.